Precisamos falar sobre suicídio

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Nos últimos dias, os brasileiros foram desafiados a discutir em seus locais de trabalho, nas igrejas, nas escolas, nas redes sociais e nos mais diversificados locais a temática do suicídio em virtude do lançamento da série “13 Reasons Why” (uma produção da Netfflix) e do jogo “Desafio da Baleia Azul”.

O que menos o adolescente precisa no momento no qual o pensamento suicida passa a ser algo recorrente é de julgamento.

O termo “desafiados” usado aqui não foi escolhido acidentalmente. Embora estudos científicos e também dados alarmantes da Organização Mundial de Saúde confirmem que a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida – além do fato do Brasil ocupar a oitava posição no mundo como um dos países com maiores índices de suicídio – esta temática ainda é tratada como um grande tabu nas relações cotidianas e na própria mídia. Este tabu se sustenta porque temos uma sociedade que trata o suicídio como uma morte voluntária, um ato de vontade, ou, ainda, um ato de fraqueza de alguém que não teve discernimento o suficiente para “escolher” um caminho de enfrentamento do seu sofrimento.

O que não nos perguntamos é: o que de fato sente uma pessoa com ideação suicida? E, indo mais além: posso ajudá-la de alguma forma?

Entre o público que comete suicídio, temos, em grande abrangência, os(as) adolescentes. Sabe-se que a adolescência é uma fase da vida de transformação, de construção de novas identidades, muitas vezes com gosto pelo desafio, mas, também, com uma grande necessidade de aceitação em seus grupos, uma preocupação exacerbada com a imagem que passa e, neste ínterim, todo este processo pode culminar em um constante sentimento de incompreensão da parte de seus pares – família, escola, alguns amigos.

Este cenário coloca dois grandes e antagônicos desafios aos pais de adolescentes: ao mesmo tempo em que precisam se reanalisar neste processo de serem pais e cuidadores de um filho(a) que também se transformou e que continuará se transformando, devem também se perguntar: eu aceito o meu(minha) filho(a) como ele(a) está se construindo? Eu estou, de fato, presente para ele(a) em qualquer momento em que ele precisar de mim?

Se os pais não conseguem responder a estas perguntas, ou, se negligenciam as respostas às quais chegaram por entrarem em conflito pessoal com seus ideais e valores, corre-se o risco de que, externamente ao seu grupo familiar ou seus outros grupos de confiança, este(a) adolescente encontre alguém que o ouça, o direcione para algum lugar e que o faça se sentir importante e parte de algo maior. Como temos discutido nos últimos dias, o “curador” do jogo Desafio da Baleia Azul pode estar ocupando este lugar – ou, para o(a) adolescente, ser alguém com este potencial.

Devemos nos questionar quanto a um curioso fato neste contexto: por que os adolescentes estão ouvindo mais um curador virtual, que impõem regras que os colocam em risco de morte, que os intimidam e ameaçam, que os levam a sentirem desejo pela morte, e menos seus pais/cuidadores? Que relações estamos construindo com nossos(as) filhos(as) adolescentes?

Todo este contexto de âmbito familiar (e, portanto, privado), somado a um cotidiano que tem, especialmente após o advento da popularização da internet e das redes sociais, tornado as relações ainda mais impessoais, não está permitindo observar que, muitas vezes, nossos(as) adolescentes estão adoecendo por depressão (que, vale enfatizar, não é frescura, não é escolha: trata-se de doença que pode ser tratada quando diagnosticada). Portanto, não devemos atribuir ao jogo a causa, pura e simplesmente, do aumento do incentivo ao suicídio como solução para uma vida que, em algum momento, não faz mais sentido. Antes é preciso perguntar-se o que levou este(a) adolescente a aceitar desafios que podem findar sua vida. Ao olharmos as regras do jogo, nos deparamos com determinações que induzem o adolescente a comportamentos característicos de pessoas acometidas por depressão. Portanto, é preciso compreender que o jogo nada mais é do que um gatilho que pode agravar um adoecimento já instalado.

Por isso, banalizar o sofrimento humano com posturas do tipo “isso é falta de surra ou ocupação” só empurra ainda mais a pessoa que está com ideação suicida para manter-se fixada neste propósito, uma vez que, o que menos ela precisa no momento é de julgamento. Devemos nos reavaliar em nossas relações para estarmos mais presentes, para acolhermos mais e julgarmos menos. Às vezes, temos alguém ao nosso lado gritando por socorro e não ouvimos e este nosso silêncio pode ser fator de agravamento da situação.

 

Karina Fonseca
Coordenação do Curso de Psicologia – Mutivix Unidade Nova Venécia

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